Seu nome é Chico


Ele chegou sorrindo — ou com o que, nos cães, se aproxima disso —, saltando com um entusiasmo desordenado, deixando escapar saliva e alegria com a mesma naturalidade. Chico nunca teve modos; Bob, por sua vez, jamais teve paciência para esse tipo de exuberância. Desde o primeiro encontro, ficou claro que não haveria conciliação.

Naquela tarde, Bob e eu seguíamos nosso ritual habitual: uma caminhada breve durante a pausa do trabalho, um intervalo silencioso e previsível. Foi então que o vi pela primeira vez. Estava sujo, visivelmente magro, carregando no corpo os sinais de abandono; ainda assim, havia nele algo difícil de ignorar — uma simpatia quase inconveniente, que parecia irradiar sem esforço. Era, como viria a confirmar mais tarde, um dos cães mais naturalmente afáveis que já encontrei.

Registrei o momento em vídeo e o enviei a alguns amigos, acompanhado de uma observação apressada:

— Olha que cachorro lindo. Está perdido por aqui. Uma pena não ter espaço em casa. Seria uma ótima companhia para o Bob.

Bob, ao ouvir minha voz — ou talvez ao perceber a atenção desviada —, respondeu com um rosnado baixo, preciso. Um aviso. Um daqueles sinais que, se levados a sério, encerram histórias antes que comecem. Ignorei.

No dia seguinte, repetimos o trajeto. E lá estava Chico, na mesma esquina, como se tivesse entendido — ou decidido — que aquele seria agora um ponto de encontro. Aproximou-se com a mesma confiança da véspera e, dessa vez, não nos deixou. Bob reagia com irritação crescente: rosnava, latia, protestava. Chico, alheio a qualquer hostilidade, seguia leve, quase alegre demais para notar o desconforto alheio.

Quando chegamos em casa, ele ainda estava conosco, caminhando como se sempre tivesse pertencido àquele percurso. Um vizinho se aproximou — desses que observam mais do que participam — e, juntos, providenciamos um pote de ração. Chico hesitou. Não comeu de imediato. Ficou atento, os olhos fixos em mim, como se aguardasse uma autorização que ninguém lhe havia formalmente concedido. Apontei para o pote. Só então começou a comer.

O vizinho interpretou a cena com convicção imediata:

— Isso é destino. Ele escolheu você. Não dá para recusar.

Pedi, quase por impulso, que Chico sentasse. Era a primeira vez que lhe dirigia qualquer comando. Ele obedeceu sem hesitação. Aquilo me chamou a atenção — não pela obediência em si, mas pela familiaridade com que ela se apresentou, como se houvesse ali uma história anterior que eu desconhecia.

Os argumentos do vizinho, somados a uma inquietação crescente — a ideia de voltar ao trabalho e passar o resto do dia imaginando por onde aquele animal estaria —, acabaram por decidir a questão. Eu o adotaria.

O vizinho providenciou uma cama, que Chico destruiu ainda na primeira noite, com a eficiência de quem não reconhece o valor simbólico dos objetos. Eu cuidei do restante: coleira, guia, o mínimo necessário para formalizar uma convivência que já estava, de certo modo, estabelecida.

Quando me perguntaram o nome, não hesitei:

— Chico.

Ele reagiu imediatamente — ao gesto, à intenção — aproximando-se com o que, novamente, só posso descrever como um sorriso, acompanhado de um abanar de cauda constante, quase profissional.

E, para aqueles que duvidam que cães sorriam, basta observar Chico diante de um pé de frango — seu petisco preferido —, momento em que sua alegria se torna não apenas visível, mas incontestável.

Tutor: Rafael

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