O Acarajé, a Resistência e o Empreendedorismo de Dona Laura no Bairro Novo


Dona Lauranda Jesus de Souza, a nossa querida Dona Laura


O tal do acarajé — quentinho, crocante, frito no dendê e com os acompanhamentos do recheio, como o camarão, a salada, o caruru e uma boa pimenta — é um negócio bom demais de se comer. Você concorda? Não sei você, mas a minha boca já encheu de água. Dá até para sentir o cheiro da iguaria só de imaginar o bolinho submergindo no óleo de dendê.

O acarajé é uma comida típica da África Ocidental, nascida entre o povo Iorubá, nas regiões onde hoje ficam a Nigéria e o Benim. Por lá, o prato que conhecemos chamava-se akará (bolo de fogo) e era oferecido como oferenda sagrada para divindades, como a orixá Iansã.

Acarajé é história. A iguaria chegou ao Brasil por meio das pessoas escravizadas que dominavam a receita. A partir daí, o saborear expandiu-se pelo país, pela Bahia e, principalmente, por nossa cidade. Muito tempo depois, percebendo a lucratividade do negócio, as baianas começaram a ocupar as praças com seus tabuleiros.

Se você parar para observar, existem vários pontos que vendem acarajé aqui em Ipiaú. Certamente, você que está lendo este texto já pensou em algum lugar específico. Se quiser, deixe nos comentários: qual é o melhor acarajé de Ipiaú para você?

Para mim, existe um lugar especial no Bairro Novo que se tornou um ponto de encontro para bate-papos cabeças com amigos. É lá que nos reunimos para debater cultura, diversidade sociopolítica, literatura e tantos outros assuntos. Sinceramente, admiro o ambiente por ser confortável, aconchegante, familiar e frequentado por pessoas comuns. Eu superindico.

Sempre tive o desejo de registrar as histórias e enfatizar a vida de quem não é visto no dia a dia, daqueles que quase não têm espaço para narrar suas próprias lutas — especialmente os moradores e trabalhadores dos bairros populares. Com essa ideia na cabeça, convidei Jota Fagner e, depois de muitas conversas sobre a importância de dar voz às pessoas comuns do Bairro Novo, resolvemos gravar um material com Dona Laura. Em breve, iremos lançar esse conteúdo.

Seu José dos Santos


Batemos um papo com Dona Lauranda Jesus de Souza, a nossa querida Dona Laura. Proprietária do estabelecimento, há 27 anos ela vende acarajé para obter o seu sustento. Ela nos contou que veio de uma fazenda da nossa região para morar na cidade quando ainda era criança.

Assim, já dá para imaginar que a vida não foi fácil, mas com muita luta e dignidade ela conseguiu trilhar seu caminho com orgulho e dedicação. Como não teve oportunidade de frequentar estudos acadêmicos, precisou "se virar nos trinta" para garantir a subsistência. Foi nessas caminhadas pela cidade que aprendeu o ofício, observando uma senhora preparar a iguaria na Praça dos Cometas. A partir dali, teve a brilhante ideia de iniciar o seu próprio empreendimento no Bairro Novo.

Foram muitas lembranças resgatadas, inclusive da época em que o acarajé custava apenas um real. Todos os dias, Dona Laura e seu José montavam e desmontavam a barraca em frente à Igreja de São José Operário para bater o ponto e servir a comunidade. Não era fácil.

O tempo passou, o preço aumentou e, com ele, vieram as cobranças públicas. Chegou uma época em que um ex-prefeito proibiu os trabalhadores de atuarem nas praças; ninguém poderia ficar. A ordem da autoridade precisava ser cumprida e, para isso, enviavam os subordinados. E estes, meu Deus, também são pessoas comuns que apenas cumprem o seu dever.

Todos os dias, os fiscais iam tirar satisfação com Dona Laura para proibi-la de trabalhar ali, ordenando que procurasse outro lugar. Mesmo com os argumentos dela, explicando que já estava naquele ponto há muito tempo, não houve conversa. Ela mudou a barraca para uma parte mais baixa da rua, mas não desistiu. Acontece que, quando chovia, a enxurrada que descia pela ladeira virava um desastre: a força da água chegava a invadir e derrubar o tabuleiro.

Contudo, com astúcia — e provando que às vezes os males vêm para o bem —, Dona Laura começou a comercializar o produto na porta de casa, e as ideias de como melhorar a produção e as vendas foram surgindo. O problema é que, justamente nesse período de transição, fomos atingidos pela pandemia da COVID-19. Muitas pessoas morreram no Brasil inteiro e, infelizmente, em Ipiaú também perdemos vidas.


Nesse período, vários estabelecimentos fecharam as portas e decretaram falência. Não havia como trabalhar, pois a ordem era fechar tudo: contato zero. Se você puxar pela memória, vai lembrar que foi um "Deus nos acuda". Alguns comércios em Ipiaú ainda resistiam, mas Dona Laura teve que fechar sua barraca por mais de 15 dias. Foi um baque imenso, e ela chegou a pensar em desistir. Ela nos contou que até a polícia aparecia para forçá-la a fechar. Os policiais estavam apenas cumprindo ordens, de fato.

Mas o que chama a atenção é o cenário paralelo: no mesmo período da COVID, ocorriam as eleições municipais. Para a campanha política, tudo podia: carreata, comício, aperto de mão, encontros presenciais. Ninguém parecia se importar com o vírus ou com o povo. É uma discrepância enorme. Buscar votos estava liberado e, no dia da apuração, o uso de trio elétrico na praça também foi permitido para celebrar a vitória. Imagine aí o Cinquentenário lotado, comemorando o resultado das urnas. COVID, máscara, saúde? Que nada, tudo foi esquecido. É a partir daí que tiramos as maiores lições: a quem a política convencional realmente serve? Quais interesses ela favorece?

Deixando as contradições de lado, Dona Laura se consolidou. Hoje, ela mostra a verdadeira força do empreendedorismo do Bairro Novo. Usando a garagem de sua casa, montou um estabelecimento firme, fincado na fibra e na coragem de uma mulher aguerrida. Quem puder provar desse sabor, eu super recomendo.

Bote Fé!


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