Quebrando Tabus: Escritora Lícia Queiroz Transforma Luta Contra o Câncer em Livro Solidário



A vida humana é complexa demais para entendermos as incertezas e as surpresas que acontecem com cada um de nós. E, assim, podemos imaginar que alguns acontecimentos surgem justamente para dificultar a caminhada nessa vasta estrada. Há de se entender, contudo, que no fim de tudo o que sobra são as experiências a ser contadas. Cada um de nós lida de um jeito diferente com a labuta e os imbróglios do dia a dia. É como um teste de resistência e de consciência daquilo que somos e podemos nos tornar a partir da nossa existência: o saber como contar e aceitar o que não controlamos. Sempre gostei de ouvir histórias daqueles que têm algo para compartilhar e que, na simplicidade, nos ensinam da melhor forma. Para ser mais claro, tive a alegria de conversar com a professora e escritora Lícia Queiroz, durante a tarde desta quarta-feira, no Bazar Beneficente do grupo de apoio às pessoas em convivência com o câncer. Foi um momento leve, com risos e sabedoria de vida, para falar sobre a obra A Capivara Careca. O livro foi construído com base em fatos reais: pessoas que foram acometidas pelo câncer e que, com persistência, seguindo as recomendações certinhas do tratamento, conseguiram se curar da enfermidade, mesmo diante de tantas dificuldades. É válido mencionar que a literatura permite dar vida à criatividade e torná-la acessível a todos. E foi pensando assim que a escritora criou personagens figurativos usando animais da fauna brasileira para tornar a leitura acessível para toda faixa etária, das crianças aos adultos. 



Lícia trouxe um tema sério para ser discutido de uma forma leve e atrativa, mostrando que o câncer é uma doença, mas que pode ser superada — ou seja, quem tem ou teve o câncer não significa que está diante do fim. Durante a conversa, a autora também relatou que é necessário quebrar tabus referentes à doença, pois ainda existem pessoas que sentem vergonha de se expor e até mesmo de pedir ajuda. Outra questão é que uma boa parte acredita que a enfermidade do câncer seja um castigo de Deus; por essa condição, acabam se abandonando e deixando de se cuidar. Durante o nosso diálogo, ela me fez lembrar de alguns filósofos estoicos, como Sêneca e Marco Aurélio, que defendem que o sofrimento e a adversidade são inerentes à vida humana. Eles não são punições, são circunstâncias. Sob esse ponto de vista, o erro está em se deixar paralisar por eles. Já o psiquiatra Viktor Frankl, que sobreviveu aos campos de concentração nazistas, afirmava que “quando não somos mais capazes de mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos”. O tratamento contra o câncer exige uma luta diária e não é fácil, mas aceitar a realidade da dor, sem o peso da culpa ou do preconceito, é o primeiro passo para encontrar forças para caminhar. Lícia deixou bastante claro na conversa que teve a ideia de lançar o livro por entender a necessidade de mostrar que é possível vencer o câncer. Ela própria é prova disso, e os personagens do livro são a confirmação concreta de que é possível lutar. Além disso, todo o dinheiro arrecadado será diretamente destinado às casas de apoio que ajudam as pessoas acometidas pela doença. Para mim, foi uma experiência grandiosa conhecer um pouco dessa história; sem sombra de dúvidas, é algo motivador. O trabalho de Lícia Queiroz reflete exatamente o que Friedrich Nietzsche chamava de transformar a dor em potência de vida. Em vez de se curvar diante da gravidade do diagnóstico, a autora transformou a empatia em literatura e solidariedade. A Capivara Careca nos mostra que o sofrimento é inevitável, mas o que fazemos com ele, e como escolhemos acolher e apoiar o próximo durante a tempestade, é o que realmente define a nossa humanidade.

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