Salve-se Quem Puder: A Lenta Destruição da Nossa Atenção pelas Telas


Quanto tempo você consegue ficar sem pegar no celular? Você já tentou ficar sem o aparelho por pelo menos 24 horas? E outra pergunta: você já foi olhar as horas no celular e acabou ficando preso por horas vendo vídeos no Instagram, TikTok ou WhatsApp?

Essas foram algumas das perguntas que fiz para as turmas do 9º ano da Escola Antônio Imbassahy, situada no Japumerim, durante uma palestra sobre o uso do celular. Recebi o convite da professora Sandra de Moraes para abordar o tema e, desde já, expresso a minha gratidão pelo espaço.

Durante a conversa, pude perceber a sinceridade de muitos estudantes ao relatarem que perdem horas assistindo a vídeos, jogando ou conversando em redes sociais. Pareciam unânimes nas respostas. O engraçado disso tudo é que essa mesma condição não afeta apenas os jovens: os adultos estão exatamente no mesmo caminho. Por isso, este texto não serve apenas para relatar a palestra, mas como um ponto de reflexão para todos nós.

Além das perguntas, abordei os problemas que as redes sociais causam nos jovens, comentei sobre a lei que proíbe o uso de celulares nas escolas e fiz uma dinâmica com eles. Foi um encontro muito proveitoso. Acredito que alguns estudantes conseguiram assimilar o que eu estava propondo, ainda que uma boa parte quisesse apenas que a palestra terminasse.

Nesse sentido, essa reação não me assusta; afinal, é uma reclamação geral na educação atual. Vários professores relatam a dificuldade em prender a atenção do aluno e fazer com que ele cumpra as atividades. Para ser bem direto, muitos estudantes parecem estar ao "Deus dará": não se importam em estudar e não se veem em uma perspectiva promissora.

Contudo, a reação dos alunos de "querer apenas que terminasse" não é mera preguiça, mas um sintoma biológico e social: o cérebro deles está desacostumado com o ritmo do mundo real e com o tempo da aprendizagem, que é lento por natureza. A questão é que o nível de atenção e foco foi reduzido. Um dos motivos é o vício no celular, somado ao fato de que o cérebro não consegue focar em duas coisas com qualidade ao mesmo tempo. Ou seja: sem foco, ficamos perdidos. Ou você lê, estuda, trabalha e conversa, ou fica no celular.

Vários autores abordam esse fenômeno do vício em telas, da dopamina e da arquitetura da distração, como Anna Lembke (Nação Dopamina), Tristan Harris (fundador do Center for Humane Technology), Johann Hari (Foco Roubado: Por que você não consegue prestar atenção) e Nicholas Carr (A Geração Superficial: O que a internet está fazendo com os nossos cérebros).

É importante deixar claro que esse cenário não atinge só a juventude. Parei um tempo para observar o ambiente e, em uma simples caminhada, pude visualizar a desconexão entre as pessoas. Certa vez, vi um pai num parque: enquanto empurrava o filho no balanço com uma mão, a outra segurava o celular, com os olhos vidrados na tela. Mais à frente, vi vários adultos em roda, todos olhando para seus próprios aparelhos sem interagir entre si, além de várias pessoas tirando selfies.

Um livro que gostei muito de ler foi o de Byung-Chul Han (A Sociedade do Cansaço e No Enxame). O filósofo contemporâneo descreve como a hipercomunicação digital destrói a capacidade de contemplação, gerando exaustão, apatia e tédio acelerado.

Bom, meu amigo leitor e minha amiga leitora, não irei me alongar para não te cansar. Que este texto sirva de reflexão para o momento que estamos atravessando. Sem querer ser pessimista, deixo um conselho: agarre seu salva-vidas e prepare o bote, pois o barco está em pleno naufrágio. A ordem do dia é: salve-se quem puder!

Vicente Andrade

Bote Fé!

Comentários

  1. Foi uma palestra muito esclarecedora, tanto para os alunos quanto para nós professores da escola que mais uma vez agradecemos a Vicente pelo excelente trabalho prestados a escola.

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