O Óbvio Sangrento: Por que Ficamos Reféns da Tragédia Alheia?
Querido leitor e querida leitora, espero que estejam bem.
Passei diversos dias pensando em escrever sobre o óbvio — aquilo que está tão à
frente dos nossos olhos que acabamos não conseguindo enxergar. Diante disso,
lembrei-me de um livro que faz muito sentido, chamado O Óbvio Também Precisa
Ser Dito, do comunicador social Guilherme Pintto.
Não irei me aprofundar nesta obra, mas cabe relatar que ela
propõe uma reflexão sobre as relações modernas, a comunicação interpessoal e o
impacto da tecnologia no nosso dia a dia. É uma ótima leitura e, querendo ou
não, tem tudo a ver com o que irei relatar aqui para você.
Antes de qualquer coisa, é válido ressaltar que não consigo
escrever difícil, cheio de jargões acadêmicos. Tento ser o mais simples
possível para que a leitura seja acessível a qualquer pessoa. Talvez assim eu
consiga expressar um pouco do que sinto e, ao mesmo tempo, me aproximar de você
e dos seus pensamentos. Meu verdadeiro objetivo é que você entenda a mensagem
para podermos dialogar sem barreiras.
Veja só: quando eu estava cursando a faculdade de
Jornalismo, existia uma disciplina chamada Ética Jornalística. Para ser
sincero, foi uma das matérias que mais gostei de estudar. Era uma disciplina
prática, e eu adorava a professora, pois ela tinha uma didática que nos fazia
refletir muito sobre a profissão. E ela “descia o cacau mesmo” (risos).
Foi nessa disciplina que me identifiquei com a figura do ombudsman.
Na área jornalística, o ombudsman é o profissional independente que atua
como representante dos leitores, ouvintes ou telespectadores dentro de um
veículo de comunicação. Sua principal função é receber críticas, apontar erros
editoriais, cobrar transparência e avaliar o trabalho da própria imprensa de
forma imparcial.
Particularmente, nunca gostei de programas de TV e sites
sensacionalistas que exploram as misérias humanas e ganham audiência com o
sangue alheio. Locais onde o "furo" de reportagem se resume a
assassinatos, acidentes de trânsito e tragédias. Infelizmente, a desgraça
alheia chama a atenção e se torna um vício coletivo, ditando o assunto
principal da cidade. Virou rotina.
É aí que entra o óbvio que a maioria não percebe. Com a
facilidade atual dos meios de comunicação, essas informações brutas são
amplamente divulgadas em grupos de WhatsApp, portais e no Instagram. Não estou
dizendo aqui que esses problemas não existam ou que deveriam ser censurados.
Pelo contrário: as apurações deveriam ser mais profundas, mostrando as causas
sociais que levam a essa violência. O jornalismo de verdade deveria discutir os
problemas de fundo e propor caminhos para saná-los, em vez de ficar refém da
tragédia para lucrar com a audiência.
O óbvio esquecido é que nós, que consumimos e compartilhamos
essas notícias logo cedo, funcionamos como a engrenagem que alimenta esse
sistema de horror. Ao darmos o clique, o visualizado e o
"encaminhado" para o vídeo do acidente ou da agressão, estamos
dizendo para o mercado que o sangue é o que nos move.
Precisamos exercer o nosso papel de ombudsman da vida
real. Cobrar seriedade, exigir profundidade e deixar de consumir a
espetacularização da dor. Se o jornalismo de verdade serve para iluminar a
sociedade e buscar soluções, o sensacionalismo serve apenas para nos paralisar
pelo medo. E o óbvio, afinal, é isto: a mudança na comunicação começa no filtro
que escolhemos dar ao que chega nas nossas mãos.
Bote Fé!
Vicente Andrade Jornalista, Especialista em
Marketing e Psicanalista.



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